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UFMG reúne comunidade Krenak e representantes do governo do estado e do Ministério Público Federal em evento

Publicado em: 7-11-2016

douglas krenak

Douglas Krenak defende pedido de desculpas do estado de Minas Gerais - Foto: Zirlene Lemos

Erehé. Com essa saudação indígena e num gesto com as mãos indicando luta, Douglas Krenak, uma das importantes lideranças indígenas em Minas Gerais, participou da mesa de abertura do evento Um ano de contaminação do Rio Doce e um século de luta Krenak, realizado nesta segunda-feira, 7, no auditório da Reitoria. “Meu povo veio aqui para receber um pedido de desculpas do estado de Minas Gerais por tudo o que já aconteceu. O crime de Mariana tem um ano, mas meu povo já sofre há mais de 200 anos quando Dom João VI nos declarou guerra', exigiu Douglas.

No último sábado,  5 de novembro, o rompimento da Barragem de Fundão no distrito de Bento Rodrigues em Mariana completou um ano. O maior desastre tecnológico e socioambiental da história brasileira, foi responsável pela contaminação da Bacia do Rio Doce, causando prejuízo à fauna e à flora, assim como às cidades e comunidades que vivem às margens do Rio, incluindo os indigenas que mantinham com o Rio Doce uma relação religiosa e a suspensão do seu uso impossibilita a prática de cultos e ritos da etnia Krenak.

Antes da abertura da cerimônia, um grupo de estudantes do Ocupa IGC – ocupação de greve estudantil contra o

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Grupo de estudantes do Ocupa IGC - Foto: Vítor Gomes

PEC 55 e a MP 746 – subiu ao palco e usou da palavra para se manifestar sobre a falta de punição após um ano do rompimento da Barragem de Fundão.

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Os Krenak apresentaram um ritual indígena - Foto: Vítor Gomes

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Componentes da mesa de abertura da cerimônia - Foto: Zirlene Lemos

Após este momento, seguiu-se uma apresentação de um ritual indígena com participação de vários membros do povo Krenak, inclusive crianças e em seguida foi composta a mesa de abertura com participação da vice-reitora da UFMG, professora Sandra Goulart Almeida; da pró-reitora adjunta de Extensão, professora Claudia Mayorga; do procurador Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal, Edmundo Dias; do secretário de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania, Nilmário Miranda, do representante da Comissão Estadual da Verdade (Covemg), Paulo Afonso Moreira e do gerente do Instituto Itaú Cultural, Claudiney Ferreira.

O procurador do Ministério Público Federal, Edmundo Dias avaliou o evento como “um encontro de luta e resistência dos estudantes da UFMG e do povo Krenak, uma aliança do setor acadêmico com o grupo dos povos indígenas”. Ele também contextualizou parte da história do povo indígena marcada por intensos conflitos por posses de terras. Segundo ele, desde a década de 1910 os Krenak sofreram com a construção da linha férrea que corta seu território e foram tidos como 'obstáculo ao desenvolvimento brasileiro. Já na ditadura militar sofreram graves violações de seus direitos humanos, com a criação do Reformatório Krenak, em 1969. “Para lá eram encaminhados indígenas que 'opunham resistência' ou eram considerados como desajustados socialmente. O presídio era local de recorrentes casos de torturas, trabalhos forçados, desaparecimentos e extermínios”, revelou.

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Platéia atenta acompanha o debate - Foto: Zirlene Lemos

O representante da Comissão Estadual da Verdade, explicou em linhas gerais o papel do órgão e reiterou a fala do procurador. “A missão da Comissão de Verdade aqui em Minas Gerais é mapear locais onde aconteceram essas violações ocorridas no tempo da ditadura militar e vamos buscar fazer essas reparações, não só no sentido material, mas principalmente no imaterial”.

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Intervenção de estudantes do Ocupa IGC - Foto: Zirlene Lemos

O secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda também concordou que não somente os Krenak, mas todos os povos indígenas foram afetados pela ditadura militar e receberão oficialmente do governo um pedido de desculpas. “ Somos solidários com as questões dos povos indígenas pois à época da ditadura, o governo do estado de MG afetou muito os indígenas Assumo, em nome do atual governo, que, a partir do relatório da Covemg, vamos trabalhar para reparação dos povos indígenas mas também é necessária a reparação por parte do governo federal, que durante a ditadura foi o principal responsável pelo sofrimento causado em todo o território nacional. Vamos sim assumir responsabilidades, não podemos fazer um pedido de desculpas sem reparações ou ter medidas efetivas”, enfatizou.

Nilmário Miranda também destacou que a Secretaria já vem desenvolvendo vários projetos buscando a reparação dos povos indigenas no Estado. Um dos exemplos é o órgão que articula as políticas sociais destinadas às comunidades indígenas e apoia as políticas de preservação, conservação e valorização da cultura indígena, e ainda o projeto de criação do Memorial Krenak em São João das Missões, no interior do estado.

Em sua fala a pró-reitora adjunta de Extensão, Claudia Mayorga destacou que “nesse diálogo com o povo Krenak, tínhamos expectativas que o estado de Minas Gerais pedisse desculpas, então vamos esperar o desdobramento do compromisso firmado pelo secretário Nilmário Miranda”, completa.

A vice-reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida, apontou o momento como um ato de reflexão e 'comemoração', no sentido de trazer à memória, fazer recordar, lembrar pois não devemos esquecer jamais o desastre de Mariana, a luta Krenak e a ditadura militar”, ponderou. Em seguida ela transferiu a responsabilidade de encerrar a cerimônia, àquele que ela considerou como o membro mais importante entre os convidados da mesa, o representante indígena Dougls Krenak.

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Douglas Krenak, a vice-reitora Sandra Almeida, a pró-reitora adjunta de Extensão, Claudia Mayorga, o procurador Edmundo Dias e o representante da Covemg, Paulo Afonso - Foto: Zirlene Lemos

“Me sinto muito honrado em encerrar essa cerimônia reiterando que estamos abertos a discutir e o que buscamos é o respeito como seres humanos, pois antes de sermos indígenas, somos humanos. Gostaria de finalizar contando com o apoio do secretário Nilmário, que aqui se mostrou um aliado das lutas indígenas, destacando que, já que o senhor se comprometeu em nome do governo de Minas Gerais, gostaria de lembrar que as terras onde se localiza a caverna dos Sete Salões, uma das reivindicações dos Krenak, pertencem a um Parque Estadual, por isso esperamos que entre as reparações do governo de Minas esteja a doação dessas terras à Funai, para que possa repassá-las aos Krenak”, finalizou Douglas Krenak.

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Exibição do video-reportagem Reformatório Krenak - Foto: Zirlene Lemos

Em seguida foi exibido o video-reportagem Reformatório Krenak produzido pelo Itaú Cultural. O evento foi organizado pela Pró-Reitoria de Extensão, em parceria com a Clínica de Direitos Humanos e compõe as atividades do programa Participa e do Observatório Interinstitucional do Desastre Mariana-Rio Doce.

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