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Aula inaugural da Formação Transversal em Direitos Humanos lota auditório da Reitoria

Publicado em: 16-03-2017

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Público atento prestigia a aula inaugural - Foto: Zirlene Lemos

O auditório da reitoria da UFMG, nesta tarde, recebeu dezenas de discentes e docentes para a a aula inaugural da Formação Transversal em Direitos Humanos. A proposta partiu da Rede Direitos Humanos da UFMG, iniciativa da Pró-reitoria de Extensão que reúne 19 núcleos, grupos e laboratórios que desenvolvem atividades de extensão, ensino e pesquisa de forma indissociável. O primeiro momento contou com participação da pró-reitora adjunta de Extensão, professora Claudia Mayorga, que apresentou a proposta da Formação Transversal, seguida por explanação do pró-reitor de Graduação, Ricardo Takahashi.

 

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Pró-reitora adjunta de Extensão, Claudia Mayorga apresentou a proposta da Formação Transversal Foto-Zirlene Lemos

Já na segunda parte quem deu o tom da discussão foram os palestrantes Luma Nogueira de Andrade, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), seguida pelo cineasta Joel Zito. Confira detalhes a seguir.

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Luma Nogueira Andrade fala de Binarismo e Direitos Humanos - Foto: Zirlene Lemos

Quem são aqueles que consideramos humanos?”, questionou Luma Nogueira durante a aula inaugural da Formação Transversal em Direitos Humanos

“Como podemos, hoje, falar em liberdade, igualdade e fraternidade? Falar de direitos humanos é refletir: afinal, quem são aqueles que consideramos humanos e quem são aqueles chamados não-humanos? Existe uma formação, logo quando a gente nasce, de como esse mundo está estabelecido e a gente começa a perceber que tipo de corpo pode existir ou não, qual performatividade pode ser feita dentro da sociedade e qual a outra que não é chancelada. Essa racionalidade vai nos conduzindo desde a infância e vai dizendo: isso que é certo, e a gente vai incorporando e reproduzindo em tudo, até mesmo nas diferenças.

Binarismo e Direitos Humanos

Num primeiro momento, Luma fez um panorama geral sobre o que chama de “pensamento binário” civilizatório. Fundamentado em estereótipos, a professora explicou que o homem foi construído socialmente para dividir os outros em dois polos. Em análise histórica, exemplos como a divisão em povos helenos e bárbaros, cristãos e pagãos, super-homens e sub-homens foram explorados pela pesquisadora, embasada por estudos de filósofos como Nietzsche e Foucault, além de citações de Arlette Farge e  Chegando ao cenário atual, Luma explorou essa polarização para problematizar questões como a ideia de humanidade, igualdade e direitos universais. “Olhem para o lado e vocês perceberão que os direitos humanos estão do lado dos considerados humanos, enquanto os inumanos continuam à margem da sociedade”.

Transfobia

Em um dos exemplos, Luma relembrou o público do caso 'Travesti é assassinada e corpo é jogado dentro do lixo', trata-se de Dandara, apedrejada e morta a tiros no Ceará há um mês. O caso foi para abordar a temática da LGBTfobia no Brasil. “Além de todo o contexto acadêmico, me posiciono politicamente como travesti como forma de enfrentamento. É um motivo, ao mesmo tempo, de tristeza e alegria, pois mesmo chegando aqui, isso evidencia que milhares de pessoas como eu não tiveram acesso à informação, nem chegaram sequer à escola. Ainda hoje, a presença de uma travesti é afronta para muita gente, nós ainda somos vistas como prostitutas, pessoas desqualificadas, não inteligentes", enfatizou.

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Joel Zito enfocou a temática do racismo no audiovisual brasileiro - Foto: Zirlene Lemos

Racismo e esporte

Joel Zito enfocou a temática do racismo no audiovisual brasileiro. Fez uma breve passagem sobre a questão da adoção de crianças negras no país, resultado de pesquisa feita para um documentário. Segundo Zito "dos 27 mil pretendentes cadastrados para adoção, somente 585 declararam aceitar crianças negras, apenas 1.537 aceitam adotar crianças pardas e 10.173 deles declararam aceitar somente crianças brancas".

Em seguida ele abordou o racismo no esporte se referindo a forma como a mídia tratou o caso de racismo sofrido pelo jogador Aranha e pelo ginasta Ângelo Assumpção, retomando a ideia do racismo como um crime perfeito. "O racismo é um crime perfeito porque ele se comporta como todo e qualquer outro crime perfeito. Do meu ponto de vista o grau máximo de perfeição que um crime pode chegar é quando o criminoso transfere para a vítima a responsabilidade do crime. Desse ponto de vista podemos compreender melhor como a mídia e a sociedade brasileira atuam diante do racismo.

Vira e mexe nós vemos um certo destaque na mídia de algum jogador que foi vítima de racismo. Qual e o comportamento da sociedade? da mídia? dos jornalistas diante do jogador que é vítima de racismo? O comportamento e pressioná-lo para que ele diga que aquilo não foi necessariamente racismo. O caso do ginasta Ângelo Assunção que diante dos colegas dele que fizeram uma série de piadas racistas, quando ele reagiu e isso virou matéria da mídia, a pressão foi para que ele assumisse que aquilo foi parte das brincadeiras naturais entre amigos no Brasil . O mesmo com o jogador de futebol Aranha. A pressão é sempre sobre a vítima. É interessante observar que, nesses casos, se a vítima não assume que foi uma brincadeira, ela é mal vista pela sociedade. Nossa realidade ainda é profundamente racista”, afirma.

Estereótipos do negro no audiovisual

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Estereótipos do negro e do mestiço no audiovisual - Foto: Zirlene Lemos

Durante sua apresentação, o cineasta se utilizou de exemplos de negros na mídia para mostrar o racismo velado no setor cultural. Segundo ele, as emissoras de TV trabalham com uma “estética do branqueamento”, que seria a escolha de atores mais claros para determinados papéis como de protagonistas, assim como a atribuição de papéis socialmente subjugados para os negros, como os serviçais e empregados domésticos.

Zito também compartilhou um fato inusitado com o público. "Em sua biografia, Dreams from my father, o próprio Obama diz que o filme que mais impactou sua mãe foi 'Orfeu Negro', de 1959, dirigido pelo francês Marcel Camus e baseado no musical “Orfeu da Conceição”, escrito por Vinicius de Moraes e com músicas de Tom Jobim e Luiz Bonfá. E mais que isso, a mãe dele, que vem do interior dos EUA, disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu. Esses filmes despertaram nela uma sensibilidade estética, erótica e sensual , tempos depois ela se apaixona e nasce o primeiro presidente negro dos EUA", contou em meio a risos da plateia.

Mas se por um lado o filme despertou paixões, em contrapartida, segundo Zito "os críticos de cinema no Brasil e os cineastas do cinema novo não entenderam o filme e chamaram de folclorização das favelas. Eles não entenderam que naquele momento no mundo tinha uma emergência de um novo olhar sobre o negro, rompendo um estereotipo do negro como imagem da feiura, do colonizado, do atraso. O cinema novo não entendei isso, Glauber Rocha não entendeu, não entenderam o potencial que o filme tinha de gerar o primeiro presidente negro do maior império da terra".

“O mestiço, por sua vez, nunca foi celebrado”, afirmou. Segundo ele, só há bem pouco tempos as atrizes Camila Pitanga e Dira Paes, por exemplo, conseguiram atuar em papéis menos estereotipados. O mundo continua brutal para os negros”.

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Público interagiu com perguntas e comentários - Foto: Zirlene Lemos

Antes de finalizar sua fala Joel Zito recorreu ao antropólogo Kabenguele Munanga diz que no Brasil o racismo é um crime perfeito. "Esse é nosso grande problema. Essa questão que é aparentemente estética, para mim é profundamente de direitos humanos. É simbolicamente articulada com a manutenção de um dos países que é considerado o mais desigual do mundo: a ideologia, a estética do branqueamento. Se nós não formos capazes de nos defrontarmos disso, qualquer outra medida vai ter tons paternalistas. As universidades necessitam preparar não só sociólogos, não só psicólogos, mas médicos, engenheiros, pessoas que tenham dentro de si naturalizada a compreensão da diferença humana como diferença humana e não como uma hierarquia de castas, de raças. Nós não somos uma raça inferior, não somos cucarachos, aves-raras. Entender isso para mim é uma questão fundamental de direitos humanos ", concluiu.

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A professora Maria Aparecida Moura, titular da Ouvidoria da UFMG também integra o corpo docente da formação transversal - Foto: Zirlene Lemos

Após as apresentações, houve um momento de participação do público por meio de perguntas e comentários. Ao final da aula, os palestrantes foram aplaudidos de pé.

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