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Diálogos entre os desastres de Mariana e Bhopal permeiam tarde de discussões

Publicado em: 26-04-2017

Relações socioambientais entre os desastres de Mariana/Rio Doce e Bhopal, na Índia, permearam as discussões no Auditório 2 da Faculdade de Ciências Econômicas (FACE) da UFMG nesta tarde. Versos de outras lutas: Diálogos entre o desastre de Bhopal/ Índia e o desastre Mariana – Rio Doce, organizado pelo programa Participa UFMG, discutiu pontos comuns entre as duas catástrofes e seus impactos nas vidas dos indivíduos. O evento contou com as presenças do convidado Bruno Sena Martins, antropólogo do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra/ Portugal, e da professora e doutora Raquel Oliveira, do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (GESTA) da UFMG.

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Antropólogo Bruno Sena Martins e socióloga Raquel Oliveira discutem impactos dos desastres na vida dos sobreviventes - Foto: Helvio Caldeira

Bruno iniciou a conversa relembrando a fatalidade de Bhopal e questionou os motivos de a história ter sido desvalorizada e esquecida tão rapidamente “No mundo atual, existem certos locais que centram nossas atenções e experiências, como Nova York e Paris. A ideia da Europa e o ocidente como centros do mundo tendem a direcionar nossas visões para certos países e esquecer de outros. Assim, falar de Bhopal é fazer um tributo às vidas ignoradas por nós”, afirmou.

Em seguida, o pesquisador dividiu um pouco do seu período de imersão na região indiana e numerou os fatores responsáveis pela tragédia. Para ele, a falta de experiências com a tecnologia e o descaso com a segurança e informação da população, juntamente com a tentativa desenfreada de poupança de gastos da indústria, foram os principais causadores da noite trágica. “Uma fábrica de pesticidas que produz substâncias como aquela jamais poderia ficar em uma região tão povoada como a de Bhopal. Além disso, a população nem sequer sabia o que era a empresa. Muitos pensavam que se tratava de uma fábrica de baterias”.

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Antropólogo Bruno Sena Martins, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra/ Portugal - Foto: Helvio Caldeira

Num terceiro momento, Bruno traçou paralelos entre os desastres de Bhopal e Mariana, evidenciando a dimensão humana em ambos os incidentes. Questões como o descaso com os cidadãos e a afetação das gerações posteriores à que viveu  a tragédia  foram abordados pelo convidado, que ainda relacionou a negligência do Estado aos conflitos. “O que aconteceu em Mariana e Bhopal não impactou apenas os que testemunharam os acontecimentos, mas será passado de geração em geração. A violência e os traumas certamente são e serão sentidos pelos descendentes dos sobreviventes mesmo antes de seus nascimentos”, completou, resgatando o conceito de “pós-memória” de Marianne Hirsch.

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Socióloga Raquel Oliveira, do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (GESTA) da UFMG - Foto: Helvio Caldeira

Ao final, a debatedora Raquel de Oliveira fez algumas considerações sobre as explicações de Bruno e mencionou o poder da narração de um conflito e como o discurso, principalmente o midiático, diz muito sobre o que se quer esconder e relatar de um fato. A doutora chamou atenção para as diferenças entre falar de algo como uma tragédia ou acidente – que mascara a responsabilidade dos órgãos causadores – e um desastre, termo que parece ressaltar o peso institucional e as decisões sociopolíticas que culminaram nos ocorridos. Após as análises o público pôde fazer perguntas e comentários aos palestrantes.

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Público atento prestigia a discussão - Foto: Helvio Caldeira

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